O filme mostra através da história de Sonia, o sofrimento vivido pelas imigrantes apanhadas nas redes de tráfico de mulheres na Europa.
"Transe" relata o percurso de Sónia desde a Rússia, país que abandona para concretizar o sonho de uma vida melhor. Em São Petersburgo deixa o filho com os pais, a melhor amiga e uma vida sem trabalho ou perspectivas, seguindo para a Alemanha na ilusão de ganhar dinheiro e regressar a casa. Porém, é apanhada numa rede de prostituição que a leva a atravessar a Europa, passando por Itália até chegar a Portugal, conhecendo a miséria e a violência às mãos de gente que compra mulheres como qualquer mercadoria.
Sónia é uma mulher que se encontra perdida e que parte em busca de um sonho: "Nessa busca ela é encontrada pelo mal e, não tendo grande talento para lidar com essa crueldade, refugia-se dentro de si. Vira-se do avesso para manter o seu espírito intocável." A partir de certa altura, reconhece Villaverde, ela perde a noção de tempo e de realidade. E o filme reflete esse estado ambíguo. "Podemos até questionar se ela está viva. Está num outro mundo." Em transe.
Despida, usada, maltratada, Sónia é o mais violento dos papéis já interpretados por Ana Moreira. "Não existe isso de levar a personagem para casa, mas ela fica latente, debaixo da pele", explica. "Ficam sempre umas gavetas destrancadas que, de repente, se podem abrir."
Sónia também não chora. Pelo menos por fora. Amordaçada por si própria, fruto da mágoa de alguém que já não sonhou muito, mas conseguiu receber pior, Sónia vai sendo molestada, violada, humilhada, vendida. Transe é mais a história de uma mulher do que da prostituição.
Menos uma metáfora doentiamente dolorosa sobre a prostituição do que a memória de que cada mulher é uma mulher e esta foi obrigada a deixar de o ser. Sónia é uma mulher que nunca teve possibilidades de ser feliz. Infeliz na sua Rússia entra numa espiral da qual não há fuga possível a partir do momento em que decide emigrar. Quando todos à sua volta são apenas mais um rosto da podridão que a tenta arrastar para o seu lodo, Sónia não se refugia em ninguém, simplesmente porque esse alguém não existe.
Muito triste essa situação de violência!